top of page

Quando a Superproteção origina a Ansiedade.


A ansiedade infantil não surge no vazio. Inscreve-se numa configuração relacional, numa forma particular de a criança se sentir no mundo e de se situar face ao outro. Nos últimos anos, tem-se tornado cada vez mais frequente encontrar crianças cuja vida psíquica parece organizada em torno da vigilância, da antecipação e do medo de falhar — como se o espaço interno estivesse permanentemente ocupado pela necessidade de garantir que nada corre mal.


Este fenómeno não pode ser dissociado das transformações profundas na forma como a infância é hoje habitada. A presença adulta tornou-se constante, a autonomia progressiva foi sendo substituída por supervisão contínua e o quotidiano da criança passou a ser intensamente estruturado. Mesmo quando não é verbalizado, este enquadramento comunica algo essencial: é preciso estar atento, porque o mundo pode ser excessivo.

Do ponto de vista psíquico, a criança constrói a sua segurança não apenas a partir da presença do adulto, mas da possibilidade de internalizar essa presença. Para que isso aconteça, é necessário que existam experiências de separação tolerável — momentos em que a criança pode agir, decidir, errar e reparar sem que o adulto ocupe imediatamente o espaço da experiência. Quando essa distância não é possível, a segurança permanece externa, dependente, frágil.


A ansiedade emerge, muitas vezes, precisamente neste ponto: quando a criança não teve oportunidade de descobrir o que consegue sustentar sozinha. Não se trata de uma fragilidade constitucional, mas de uma organização psíquica excessivamente apoiada no outro. O medo não nasce apenas do perigo imaginado, mas da ausência de uma sensação interna de competência.


A supervisão constante, ainda que motivada pelo cuidado, pode ter um efeito paradoxal. Ao impedir o confronto com pequenas doses de incerteza, impede também a construção da confiança interna. A criança não chega a experimentar a sequência fundamental do desenvolvimento emocional:

tenho medo → tento → sobrevivo → integro.


Sem esta experiência, o medo mantém-se difuso, sem transformação.


A autonomia, neste enquadramento, não é um treino comportamental nem um objectivo educativo isolado. É uma experiência emocional estruturante. Cada gesto autónomo — quando ajustado à idade e à maturidade psíquica — permite à criança reorganizar a relação consigo própria. O mundo deixa de ser vivido apenas como ameaça e passa a ser um espaço onde algo pode ser tentado.




Promover a independência implica um trabalho fino de regulação da distância relacional. Não é retirar o adulto, mas permitir que a sua presença seja suficientemente interna para que a criança não precise dele a cada passo. É nesse espaço intermédio — nem fusão, nem abandono —, que a ansiedade pode começar a ceder.


Quando a criança sente que consegue existir sem vigilância constante, algo se reorganiza por dentro. O corpo desacelera, o pensamento ganha continuidade, a experiência deixa de ser fragmentada pelo medo. A confiança não surge porque o mundo se tornou seguro, mas porque a criança começou a sentir que tem recursos para o habitar.


Talvez o desafio central da parentalidade contemporânea não seja superproteger, mas confiar melhor. Confiar que a criança pode tolerar pequenas doses de desconforto sem se desorganizar. Confiar que a autonomia não fragiliza o vínculo, mas o aprofunda. E confiar que é precisamente nesse espaço de separação possível que a ansiedade encontra condições para se transformar.


Orientações práticas:

  • Introduzir experiências de autonomia de forma progressiva, respeitando a idade cronológica e, sobretudo, a maturidade emocional da criança.

  • Suster a ansiedade sem a eliminar de imediato, permitindo que a criança atravesse o medo em vez de ser resgatada antes da experiência.

  • Evitar ocupar o espaço da resolução, dando tempo para que a criança tente organizar-se sozinha antes da intervenção adulta.

  • Manter uma presença psíquica estável, transmitindo confiança mesmo na ausência física.

  • Observar a própria ansiedade parental, distinguindo o medo da criança do medo do adulto.

  • Valorizar a experiência interna, mais do que o desempenho ou o resultado visível.



Estamos aqui, na PSIKIKA, para o ajudar.

91 425 07 10





Saudações Psikikas



Comentários


bottom of page