Identidade - Nós e os Outros
- Psikika

- 16 de nov. de 2025
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Num tempo em que as fronteiras entre o individual e o coletivo parecem cada vez mais difusas, compreender o papel da identidade social torna-se essencial. Seja nas redes sociais, nas comunidades locais ou nas nações, a forma como as pessoas se percecionam e se posicionam em relação aos outros é profundamente influenciada pelo sentimento de pertença a um grupo. Através da Teoria da Identidade Social é possível compreender como a integração a um grupo pode moldar pensamentos, emoções e comportamentos.

Segundo esta teoria, a identidade social corresponde à parte do autoconceito que advém da pertença a grupos sociais significativos e do valor emocional associado a essa pertença. Cada indivíduo constrói o seu “Eu” não apenas a partir das suas características pessoais, mas também através das categorias sociais a que pertence, tais como o género, a nacionalidade, a profissão, a etnia, entre outras. Esta dupla dimensão, pessoal e social, do self permite equilibrar a necessidade de ser único com a necessidade de integrar-se em algo maior. Contudo, este mesmo processo de categorização pode dar origem a um favoritismo intragrupal e, por consequência, à discriminação do outro.
Em 1979, Tajfel e Turner demonstraram que basta uma divisão arbitrária, como dividir os indivíduos em duas equipas, para que surja uma tendência de favorecer o grupo de pertença. Através desta simples categorização, os participantes demonstravam comportamentos de lealdade e preconceito, ainda que o grupo fosse criado de forma totalmente artificial. Estas observações evidenciaram como a identidade social é um mecanismo fundamental para a manutenção da autoestima e da coesão, mesmo à custa da imparcialidade.
Décadas depois, esta teoria continua a ser relevante para compreender os comportamentos discriminatórios. Um estudo mais recente demonstrou que a identidade nacional não conduz necessariamente a atitudes hostis face a imigrantes, mas que estas dependem da forma como se concebe a ideia de nação. Quando a identidade nacional é concebida de forma cívica e inclusiva, baseada em valores partilhados e de cidadania, o orgulho nacional pode coexistir com a tolerância. Em contrapartida, quando essa é entendida como étnica ou culturalmente exclusiva, a identificação com o grupo tende a refletir-se em atitudes menos inclusivas e mais discriminatórias. Assim, não é a intensidade do sentimento de pertença que gera discriminação, mas o conteúdo simbólico e os limites traçados entre o “nós” e o “eles”.

Também ao nível local, a identidade social desempenha um papel importante na forma como as pessoas percebem o espaço e as relações interpessoais. Em 2016, um estudo português demonstrou que os residentes de bairros mais pequenos apresentam níveis superiores de identificação e satisfação com o local de residência, mas também uma maior tendência para discriminar outros bairros. Estes resultados são interpretados à luz da Teoria da Distinção Ótima, que propõe que as pessoas procuram grupos que satisfaçam simultaneamente a necessidade de inclusão e a de diferenciação. Assim, a geografia do espaço reflete-se na geografia das identidades: quanto mais delimitado o grupo, mais intensa é a identificação e, paradoxalmente, maior a probabilidade de exclusão dos outros.
Estas dinâmicas observam-se hoje em inúmeros contextos. Nas redes sociais, as comunidades digitais criam identidades coletivas em torno de estilos de vida, causas políticas ou preferências culturais. O sentimento de pertença fortalece a coesão, mas também pode alimentar a polarização e o conflito. A teoria de Tajfel e Turner ajuda a explicar este fenómeno contemporâneo pois, quanto mais ameaçado se sente o grupo, mais os seus membros tendem a reforçar as fronteiras simbólicas e a rejeitar quem pensa de forma diferente.
Neste ponto, as reflexões de Hornsey tornam-se particularmente pertinentes. O autor salienta que a identidade social não é apenas uma questão de comparação com os outros, mas também uma forma de reduzir a incerteza e encontrar coerência num mundo social complexo. O grupo oferece estrutura, normas e previsibilidade, fornece um “mapa” que orienta o comportamento e o pensamento. No entanto, quando o grupo se transforma numa fonte única de validação, o “nós” pode tornar-se uma fronteira rígida que aprisiona o “eu”.

Do ponto de vista psicológico, reconhecer a influência da identidade social é crucial para compreender fenómenos como o preconceito, o nacionalismo, a rivalidade entre grupos ou até as tensões entre bairros ou comunidades. Contudo, também nos recorda do potencial positivo da pertença: os grupos podem oferecer suporte emocional, sentido de propósito e autoestima. O desafio não está em eliminar as identidades coletivas, mas em promover formas inclusivas e flexíveis de pertença, nas quais a valorização do grupo não dependa da desvalorização dos outros.
Em suma, a identidade individual é fruto também das relações sociais que cultivamos. Compreender este equilíbrio é essencial para construir comunidades mais coesas, mas também mais empáticas e conscientes dos limites da sua própria identidade. Afinal, reconhecer-se num grupo não deveria significar fechar-se ao mundo, mas encontrar nele o espelho de uma humanidade partilhada.
No trabalho clínico, é frequente observarmos como estas dinâmicas de pertença atravessam o quotidiano das pessoas — desde crianças que procuram um lugar no grupo da escola, a adolescentes que se moldam à cultura digital para não ficarem de fora, até adultos que se sentem divididos entre expectativas familiares e a necessidade de afirmação pessoal. Muitas das inquietações que chegam ao consultório revelam precisamente este movimento entre o desejo de proximidade e o medo de perder a própria identidade.

Compreender a identidade social ajuda-nos a reconhecer que o “nós” pode ser um lugar de amparo, mas também de pressão. Na PSIKIKA, acompanhamos frequentemente processos em que o trabalho terapêutico passa por fortalecer o “eu” sem desligá-lo dos vínculos que dão sentido à vida. Trata-se de ajudar cada pessoa a encontrar uma forma de pertença que não engula a singularidade, mas que a acolha.
Num mundo em que as fronteiras simbólicas entre grupos se tornam cada vez mais rígidas — seja na política, na cultura ou nas comunidades digitais — pensar estes temas é também um convite à empatia. O desafio contemporâneo não é eliminar as diferenças, mas aprender a habitá-las sem transformar o outro numa ameaça. Talvez seja aqui que resida a verdadeira maturidade relacional: descobrir que o “nós” é mais forte quando deixa espaço para o “eu”, e que a proximidade não precisa de apagar as nuances que nos distinguem.
Estamos aqui, na PSIKIKA, para o ajudar.
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Referências
Brewer, M. B. (1991). The social self: On being the same and different at the same
time. Personality and Social Psychology Bulletin, 17(5), 475–482.
Bernardo, F., & Palma-Oliveira, J.-M. (2016). Identification with the neighborhood:
Discrimination and neighborhood size. Self and Identity, 16(3), 1–19.
Hornsey, M. J. (2008). Social identity theory and self-categorization theory: A
historical review. Social and Personality Psychology Compass, 2(1), 204–222.
Pehrson, S., Vignoles, V. L., & Brown, R. (2009). National identification and anti‐
immigrant prejudice: Individual and contextual effects of national definitions.
Social Psychology Quarterly, 72(1), 24–38.
Tajfel, H., & Turner, J. C. (1979). An integrative theory of intergroup conflict. In W.
G. Austin & S. Worchel (Eds.), The social psychology of intergroup relations
(pp. 33–47). Monterey, CA: Brooks/Cole.




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