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Ano novo, vida nova?


Com a chegada de um novo ano, é comum surgirem também as habituais resoluções. Como se, no exato momento em que se acertam os relógios e se inaugura um novo ano, fosse igualmente concedida a possibilidade de começar do zero, de reorganizar os desejos e de concretizar as mudanças adiadas. No entanto, passadas poucas semanas, muitas dessas resoluções são abandonadas, dando lugar à frustração e à sensação de insuficiência. Mas afinal, porque é que este fenómeno se repete de forma tão consistente de ano após ano?


Do ponto de vista psicológico, a atração pelas resoluções de ano novo está intimamente ligada à necessidade humana de sentido, controlo e renovação. O início de um novo ano funciona como um marco temporal, aquilo que a ciência designa por Fresh start effect. Estes marcos criam uma fronteira simbólica entre o “eu do passado” e o “eu do futuro”, permitindo às pessoas distanciarem-se mentalmente de erros e falhas anteriores e investir numa versão idealizada de si mesmas. Contudo, o problema não reside no desejo de mudança, mas na forma como essa mudança é conceptualizada.



Quando se observa quais são as resoluções de Ano Novo mais frequentes, percebe-se rapidamente um padrão partilhado por diversas pessoas. As resoluções mais comuns são: fazer mais exercício, ter uma alimentação mais saudável, reduzir o stress, cuidar mais de si próprio, poupar dinheiro ou ser mais produtivo. Apesar de legítimas e compreensíveis, estas resoluções caracterizam-se, na sua maioria, por serem vagas e pouco estruturadas. Não definem o que significa, na prática, comer melhor, cuidar de si ou reduzir o stress, nem estabelecem critérios claros que permitam avaliar o progresso ao longo do tempo. Psicologicamente, esta indefinição fragiliza o compromisso com a mudança, pois torna difícil transformar uma intenção genérica em comportamentos concretos e sustentáveis no quotidiano. Em contraste, quando a mudança está alinhada com os valores pessoais e as necessidades psicológicas básicas, como autonomia, competência e relação, a adesão tende a ser mais duradoura.


Além disso, muitas resoluções falham porque ignoram a força dos hábitos. A ideia de que basta força de vontade para mudar desconsidera décadas de investigação em psicologia e reforça a crença de que “só não muda quem não quer”, responsabilizando o indivíduo por dificuldades que são, em grande parte, sustentadas por processos automáticos e dependentes do contexto. Estudos sobre a formação de hábitos demonstram que a mudança ocorre de forma gradual, através da repetição consistente em contextos estáveis, e não por decisões pontuais ou motivação momentânea. Esperar uma transformação rápida é, muitas vezes, a receita para falhar.


Para além disso, associada ao estabelecimento de resoluções pouco definidas, surge também a tendência para interpretar as recaídas como falhas pessoais. A evidência científica sobre a autorregulação tem demonstrado que episódios de deslize são comuns e previsíveis em qualquer processo de mudança. No entanto, quando interpretados de forma rígida como “falhei, logo não sou capaz”, aumentam significativamente a probabilidade de abandono total do processo. A ausência de autocompaixão acaba por transformar pequenas falhas em motivos suficientes para desistir.



Paradoxalmente, o valor psicológico das resoluções de Ano Novo não está necessariamente no seu cumprimento integral, mas na reflexão que provocam. Questionar o que se quer mudar, porquê e para quê pode ser um exercício de autoconhecimento relevante. A mudança torna-se mais viável quando deixa de ser encarada como uma rutura radical com quem fomos e passa a ser entendida como um processo contínuo, imperfeito e ajustável.


Talvez uma das resoluções possíveis seja permitir-se iniciar um processo de mudança interior, menos centrado em metas rígidas e mais atento à forma como cada pessoa se relaciona consigo própria, com as suas dificuldades e com o tempo necessário para mudar, abandonando a fantasia de um “novo eu” e abraçando a possibilidade de transformação a partir de quem já se é, com as suas fragilidades, limites e potencial de crescimento. Na PSIKIKA, esse processo é muitas vezes pensado como um espaço de reflexão e acompanhamento, onde a mudança pode acontecer de forma gradual, consciente e ajustada à singularidade de cada pessoa.



Estamos aqui, na PSIKIKA, para o ajudar.

91 425 07 10




Psikikamente,

IG.



Referências

Baumeister, R. F., & Heatherton, T. F. (1996). Self-regulation failure: An overview. Psychological Inquiry, 7(1), 1–15.

Dai, H., Milkman, K. L., & Riis, J. (2014). The fresh start effect: Temporal landmarks motivate aspirational behavior. Management Science, 60(10), 2563–2582.

Deci, E. L., & Ryan, R. M. (2000). The “what” and “why” of goal pursuits: Human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry, 11(4), 227–268.

Lally, P., van Jaarsveld, C. H. M., Potts, H. W. W., & Wardle, J. (2010). How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology, 40(6), 998–1009.

Locke, E. A., & Latham, G. P. (2002). Building a practically useful theory of goal setting and task motivation. American Psychologist, 57(9), 705–717.

 

 

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