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A Procura pela Perfeição: Quando a Construção do “Eu Ideal” nos Afasta de Nós Próprios

há 16 horas
3 min de leitura

Recentemente debrucei-me sobre o filme Black Swan, onde a personagem principal, Nina, vive uma procura intensa pela perfeição. A dança deixa de ser apenas uma expressão artística e transforma-se numa medida do seu próprio valor. Cada movimento, cada erro e cada falha tornam-se provas de uma possível insuficiência. À medida que a exigência aumenta, a fronteira entre aquilo que Nina é e aquilo que sente que precisa de ser começa progressivamente a desaparecer.

Embora retratado de uma forma extrema, este conflito representa uma experiência que pode surgir de diferentes formas na vida quotidiana: a tentativa constante de alcançar uma versão idealizada de nós próprios. A ideia de que existe um “eu perfeito” que devemos atingir pode tornar-se uma fonte permanente de pressão, onde o presente é vivido apenas como uma etapa insuficiente antes de chegar a algo melhor.


O perfeccionismo é frequentemente associado à procura de excelência, mas nem sempre nasce apenas de uma vontade saudável de melhorar. Em alguns casos, está ligado a uma necessidade profunda de evitar falhar, desiludir ou sentir que não se é suficiente. A pessoa deixa de procurar fazer algo bem e passa a procurar não errar. O foco deixa de estar na experiência e passa a estar na avaliação constante de si própria.


No contexto clínico, esta dinâmica pode surgir através de pessoas que vivem num estado permanente de exigência interna. Pessoas que alcançam objetivos, mas sentem que nunca é suficiente; que recebem reconhecimento externo, mas têm dificuldade em senti-lo internamente; que estão sempre a preparar o próximo passo, a próxima conquista ou a próxima mudança, sem conseguirem verdadeiramente permanecer no momento presente.


Existe aqui uma relação importante com a ansiedade. Muitas vezes, a ansiedade surge ligada a uma tentativa de antecipar e controlar aquilo que ainda não aconteceu. A mente desloca-se constantemente para o futuro: “E se eu falhar?”, “E se não for suficiente?”, “E se perder aquilo que conquistei?”. Esta preocupação pode criar a ilusão de preparação, como se pensar repetidamente sobre todos os cenários possíveis fosse uma forma de evitar sofrimento. 


No entanto, quando a vida é vivida maioritariamente no futuro, surge uma questão difícil: o que acontece ao presente? Quem somos nós quando deixamos de estar focados naquilo que precisamos de alcançar? Se a nossa identidade fica demasiado ligada ao desempenho, à produtividade ou à capacidade de corresponder a expectativas, pode tornar-se difícil reconhecer quem somos para além desses papéis.


O filme evidencia também uma perda progressiva de contacto com o próprio eu. A procura pela perfeição leva Nina a aproximar-se cada vez mais de uma imagem idealizada, mas simultaneamente afasta-a das suas próprias necessidades, desejos e limites. A transformação que procura alcançar acaba por ter um custo: para se tornar aquilo que acredita que precisa de ser, perde partes importantes daquilo que já era.


Esta ideia pode ser observada em muitas experiências humanas. Por vezes, as pessoas não percebem que estão cansadas porque aprenderam a valorizar apenas a capacidade de continuar. Não reconhecem a tristeza porque acreditam que deveriam estar gratas. Não aceitam a dúvida porque sentem que deveriam ter sempre certezas. Aos poucos, aquilo que é espontâneo, imperfeito e genuíno pode ser substituído por uma tentativa constante de corresponder a uma determinada imagem.



O trabalho terapêutico pode passar precisamente por explorar esta distância entre o “eu que sou” e o “eu que sinto que deveria ser”. Não se trata de abandonar objetivos ou deixar de procurar crescimento, mas de questionar quando essa procura deixa de estar ao serviço da pessoa e passa a controlar a sua forma de existir.


Talvez uma das questões mais importantes seja perceber se estamos a construir uma vida que realmente queremos viver ou apenas uma vida que esperamos que um dia nos permita finalmente sentir que somos suficientes. Porque, quando estamos constantemente a tentar tornar-nos alguém no futuro, existe o risco de esquecermos a pessoa que já somos no presente.




Estamos aqui, na PSIKIKA, para o ajudar.

91 425 07 10





Saudações Psikikas,

J.



 

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