Cuidados Parentais, Vinculação e Regulação Emocional
- Psikika

- 3 de set. de 2025
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A Medicina Psicossomática surge, desde os primórdios da humanidade, pelo reconhecimento e relevância dos aspectos psíquicos no adoecimento físico (Vicente, 2005). Vários autores procuraram implementar uma visão monista sobre o corpo e a mente, defendendo o papel e a influência das emoções na concepção psicopatológica, sobretudo, nas experiências relacionadas com os aspetos vivenciais estabelecidos nas relações precoces (Eusébio & Ouakinin, 2012). Neste sentido, a investigação neste campo científico tem evidenciado a importância da Teoria da Vinculação e a influência dos fenómenos psicológicos nos processos de saúde e doença, especialmente em situações adversas na infância (e.g., divórcio parental, abuso sexual, acidentes traumáticos) (Eusébio & Ouakinin, 2012; Vesterling & Koglin, 2020; Shenaar-Golan et al., 2021). A literatura existente tem demonstrado correlações significativas entre a vivência de acontecimentos adversos com a prevalência de processos de doença durante o ciclo de vida.
Abordar a temática sobre a saúde pediátrica exige, a necessidade de referir os fenómenos de stress e o seu confronto, enquanto potencializador da doença ou como resultado da mesma. Estes acontecimentos, de caráter ansiogénico, durante a infância e a adolescência, têm sido relacionados com uma maior possibilidade ou vulnerabilidade à doença. É também ilustrado que as experiências de situações de doença são percecionadas como forma de stress tanto para a família como para quem carrega a doença. Desta forma a vivência de acontecimentos precoces de stress, sob a forma de cuidados desajustados às necessidades da criança, sugerem um aumento de riscos psicopatológicos, especialmente, perturbações relacionadas com a regulação emocional (Schimmenti & Caretti, 2018).

A Teoria da Vinculação mostra-se um modelo de referência, nesta área de entendimento, ao enfatizar a importância das interações precoces durante a infância, entre a criança e a figura de vinculação (Eusébio, 2012; Vesterling & Koglin, 2020). Para este modelo, é a qualidade desta relação que vai determinar os padrões de resposta ao stress e a vulnerabilidade à doença (Vesterling & Koglin, 2020). Assim, quando as figuras de vinculação são incapazes de promover uma relação securizante, existe um comprometimento sobre o seu sentimento de segurança e proximidade afetiva, potenciando a progressão de representações negativas e estratégias de regulação emocional disfuncionais (Vicente, 2005). Os autores Gross e Thompson (2007) procuraram ilustrar a importância dos estilos de vinculação no desenvolvimento de estratégias de autorregulação emocional adaptativas. Para os autores, esta capacidade exige, num primeiro momento, a passagem de uma heterorregulação para uma autorregulação, que promova a modulação do fluxo de excitação e ativação de determinados circuitos. É neste sentido que a sensibilidade materna surge como um fator fundamental, uma vez que funciona como um organizador externo da regulação biocomportamental da criança, determinando, em parte, a qualidade das estratégias da regulação emocional da criança (Vesterling & Koglin, 2020). São as experiências de afeto positivo após situações de stress que permitem à criança aprender a reagir e regular estes acontecimentos, bem como desenvolver capacidades de resiliência, correspondendo ao que se entende por vinculação segura.

No estudo desenvolvido por Shenaar-Golan e colegas (2021), os autores evidenciaram que crianças com estilos de vinculação insegura tendem a apresentar uma menor flexibilidade na capacidade de regulação das suas emoções negativas. Esta dificuldade surge pela escassez de oportunidades que favorecem o desenvolvimento de estratégias adaptativas de regulação emocional, sobretudo no contexto das interações com as figuras de referência. É neste contexto que encontramos recorrentemente na prática clínica, o recurso a estratégias de regulação desadaptativas, como a repressão. Ainda que este mecanismo reduza, temporariamente, o impacto da experiência emocional, a longo prazo pode promover o aumento da reatividade fisiológica devido ao esforço contínuo de inibir a vivência emocional (Gross, 2002).
Desta forma, é possível evidenciar na literatura científica a associação entre a inibição emocional e o surgimento ou agravamento de diversas patologias somáticas (e.g., doenças respiratórias, cardiovasculares, autoimunes, e quadros de dor crónica). No fundo, os sintomas existentes constituem-se como sinais de alerta para a intensidade da vivência, sendo que, os indivíduos, por não possuírem recursos adaptados, somatizam o que não conseguem mentalizar. É neste sentido que se torna imperativo reforçar uma abordagem integrativa ao trabalhar no âmbito da saúde infantil, considerando não só os sintomas físicos, como o contexto emocional e relacional da criança e/ou adolescente. Assim, o envolvimento dos pais no plano de intervenção assume um papel fundamental, uma vez que ao trabalharmos a sua sensibilização, orientação e competências parentais permitirá o desenvolvimento de uma maior responsividade emocional, contribuindo para um ambiente afetivo mais seguro e, consequentemente, o fortalecimento de recursos internos da criança e/ou adolescente.

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Referências Bibliográficas
Eusébio, S. & Ouakinin, S. (2012). “No Mundo não Tem Boa Sorte Senão quem Tem por Boa a (mãe) que Tem” - Da Vinculação à Saúde na idade adulta. Revista Portuguesa de Psicossomática, Vol. II On-Line, 1-27.
Gross, J. J. (2002). Emotion regulation: Affective, cognitive, and social consequences. Psychophysiology, 39(3), 281-291.
Gross, J. J. & Thompson, R. A. (2007). Emotion Regulation Conceptual Foundations. In: J. Gross (Ed.), Handbook of Emotion Regulation. Guilford Publications.
Shenaar-Golan, V., Yatzkar, U., & Yaffe, Y. (2021). Paternal Feelings and Child’s Anxiety: The Mediating Role of Father–Child Insecure Attachment and Child’s Emotional Regulation. American Journal of Men's Health, 15(6), 15579883211067103 https://doi.org/10.1177/15579883211067103
Schimmenti, A., & Carreti, V. (2018). Clinical Issues and Somatic and Psychiatric Patology: Attachment, Trauma, and Alexithymia. In R. M. Bagby., O. Luminet., G. J. Taylor (Eds.), Alexithymia: Advances in Research, Theory, and Clinical Practice (Cap. 8, pp. 127-141). Cambridge University Press.
Vesterling, C., & Koglin, U. (2020). The relationship between attachment and somatoform symptoms in children and adolescents: A systematic review and meta-analysis. Journal of Psychosomatic Research, 130, 109932. https://doi.org/10.1016/j.jpsychores.2020.109932
Vicente, L. B. (2005). Psicanálise e Psicossomática – Uma Revisão. Revista Portuguesa de Psicossomática, 7(1-2), 257-267




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